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Boa Noite, de Pam Gonçalves

15 de janeiro de 2018


Olá pessoal, tudo bom? Depois da onda de denúncias que ocorreram em Hollywood sobre abuso sexual, me lembrei do livro Boa Noite, escrito pela Pam Gonçalves e publicado pela Galera Record em 2016. Apesar de ter lido no ano passado, percebi que ainda não tinha escrito a minha opinião, então resolvi publicar essa resenha para compartilhar o meu amor por essa obra.

Editora: Galera. Ano de Lançamento: 2016. Páginas: 240.
SkoobGoodreads. Onde comprar: AmazonSaraiva

A culpa não é sua!

Alina é a típica mocinha boazinha: ela é boa aluna, boa filha e uma boa menina. Não fez nada de errado durante toda a sua vida e, ao se mudar para cursar Engenharia da Computação na universidade, quer mudar. Mas ao entrar em uma sala repleta de garotos e ainda morar em uma república mista - com pessoas de todos os tipos -, percebe que o mundo não é tão lindo assim.

Preconceito, abuso sexual, drogas e machismo faz parte de sua nova rotina. A vida de uma garota em uma universidade não é tão fácil. Ela tem que lidar com os colegas de sala tentando a dissuadir a não fazer o curso já que ela é uma mulher; com um ranking feito por homens em que listam as garotas que lá estudam em uma escala de quais são mais "fáceis"; com alguns caras tentando drogar as mulheres nas festas e estuprá-las; e ainda com a sua vida amorosa e com as novas amizades. Sim, não é tão simples assim. Mas Alina não desiste e, com ajuda de outras meninas, atravessa cada obstáculo e consegue provar que elas conseguem.

"Ao contrário do que somos educadas a pensar, as outras mulheres não são nossas inimigas, mas sim nossas irmãs. Um time. O exército que precisamos proteger. ”

Quando falamos em feminismo, sempre tem aqueles para tentar "manchar" a luta e divulgar coisas que não são do movimento. Feminismo, para quem não sabe, nada mais é que a luta por direitos iguais. Eu estar aqui, na internet, compartilhando a minha opinião com vocês sem precisar pedir autorização para ninguém; ter a opção de trabalhar/casar/ter filhos/divorciar se eu quiser; e até mesmo poder votar, é graças a ele. Eu não quero ser superior a nenhum homem, só quero ter os mesmos direitos e deveres que ele. Só isso.

E a nossa sociedade, infelizmente, é criada para ser machista. E isso afeta não só mulheres, como também os homens. Os homens não podem chorar? Por que eles têm que pagar mais em baladas? Por que eles têm que ser obrigados a se alistarem no serviço militar? As explicações, quando dadas, estão aliadas ao machismo e a luta pela igualdade também os afetam. E uma das lutas é sobre a violência. Violência doméstica está presente, o femicídio - a mulher ser morta por ser mulher - está aumentando ao longo dos anos.

Livros como Boa Noite, escrito para os jovens, é um dos resultados desse movimento. O feminismo é claro ali, sem que o conceito seja falado toda hora. Não é necessário, já que as ações falam mais do que as palavras. O preconceito que a Alina e suas colegas de sala sofrem por serem mulheres em um ambiente totalmente masculino é forte. Os professores e colegas de sala não acreditarem em seus potenciais só por serem mulheres é enervante. As meninas da universidade terem um ranking de acordo com a maneira que elas agem pelo sexo oposto é horrível. Elas serem drogadas e estupradas é para fechar a lista de coisas desumanas. Não tem uma palavra para definir tudo o que ela mostra, senão realidade.

Tudo o que ela demonstra é a realidade do mundo. As mulheres sendo subjugadas como se não fossem boas o bastante. Serem abusadas sexualmente em todos os lugares - casa, escola, trabalho e rua - como se os homens tivessem o direito de fazerem isso. Além de passarem por essa humilhação, podem ainda não terem o desejo de fazer B.O.,  pois sabem que muitas pessoas não acreditarão em suas palavras - e ainda vão apoiar o abusador.

Diante de tudo isso, uma das poucas coisas que eu não gostei na leitura foi que a maneira que a Alina se descreve e como ela age são duas coisas bem diferentes. Ela, no começo, fala que era uma nerd, não sociável e que queria mudar quando chegasse na universidade. Porém, quando chega dá a "louca", vai para as festas e namora. Não há nada de errado nisso, aliás, mas é difícil uma pessoa mudar tão drasticamente da noite para o dia, né? Ainda mais sabendo que, pelo menos o que foi mostrado, é que ela não tinha amigos. Então como ela faz amizade e conversa em festas tão facilmente? Alguma coisa estava errada e simplesmente não colou.

Depois de um tempo eu deixei isso de lado e me foquei na história maravilhosa. É o tipo de livro que eu recomendaria para todas as mulheres, pois, acima de tudo, a Pam consegue deixar bem claro em sua narrativa que a vítima não tem culpa do abuso sexual. Nós não temos culpa se somos assaltados na rua, então por que tentam nos culpar por um estupro? Isso é inadmissível e acabamos sendo duplamente violentadas: quando ocorre o crime e quando tentam minimizá-lo, nos culpando e tentando nos dissuadir - seja para não fazer denúncia ou encobrindo dizendo que é mentira.

É por isso que é lindo ver mulheres se apoiando. É lindo ver a maioria das pessoas vestindo preto no Globo de Ouro em denúncia aos abusos sexuais sofridos em Hollywood. É lindo ver que algumas pessoas dão valor as denúncias, dando, pelo menos, o benefício da dúvida e não descartar logo dizendo que não é verdade (ou dizendo que elas querem ganhar fama/dinheiro ou está tentando destruir a carreira de alguém). E é lindo ver que esse é a primeira obra que a Pam publica e ela consegue fazer um bom trabalho.

Ela traz todos os assuntos com naturalidade, tratando-os como realidade, e nos mostra o seu ponto de vista sobre os assuntos sem tentar dar uma aula didática - como acontece com alguns livros que falam sobre isso. Com uma narrativa em primeira pessoa e apenas 240 páginas, nem todos os tópicos inseridos são aprofundados, dado a sua limitação. Porém ela consegue entregar uma história coesa - com começo, meio e fim -, além de cenas cômicas, romance e drama bem administrados sem sair do ritmo.

Não há cenas de sexo, mas mostra o ambiente universitário, então eu posso até recomendar para os adolescentes, desde que estejam cientes dos temas abordados. Em uma edição simples da Editora Galera Record, não encontrei erros na revisão, então a leitura fluiu com leveza - apesar da trama. Uma história aparentemente simples e real, mas que podem abrir as portas para os debates. Vale a pena para todas as pessoas que desejam entender como realmente é o papel da mulher nessa sociedade machista.