Afiliados

Rastro de Sangue: Jack, o Estripador, de Kerri Maniscalco

19 de março de 2018


Olá pessoal, tudo bom? Quando eu vi a proposta do livro Rastro de Sangue: Jack o Estripador, lançamento de março da Darkside Books e romance de estreia de Kerri Maniscalco, fiquei doida para ler. Ver como seria se a investigação de um dos maiores mistérios do século XIX fosse feito por uma mulher, despertou a minha curiosidade. Por causa disso, aproveitei a promoção de Dia da Mulher na Saraiva para adquirir a obra e comecei a leitura assim que chegou em casa. Vou compartilhar com vocês a minha opinião sobre ela, vamos lá?

Editora: Darkside Books. Ano de Lançamento: 2018. Páginas: 354.
SkoobGoodreads. Onde comprar: AmazonSaraiva.

1888. Era vitoriana. Jack, o Estripador  começou a matar

Audrey Rose vem de uma família aristocrata. Sendo ensinada desde nova como se portar diante da sociedade, não consegue convencer o pai de ter aulas de medicina forense com o seu tio Jonathan. Então, o mesmo faz isso as escondias, lhe ensinando sobre autópsias e corpo humano, em uma época em que isso não era apropriado para as mulheres.

Ela tem 17 anos e se vê inserida no meio da investigação deu um assassinato que choca a cidade. Por "conhecer" a vítima, acredita que é o seu dever descobrir quem é o culpado e não vai parar enquanto o mesmo não for entregado à justiça. Procurando pistas que podem lhe levar ao culpado, ela tenta provar que, mesmo sendo mulher, pode ter direitos iguais aos homens.

Audrey ainda tem que lidar com um colega que lhe traz a tona diversos sentimentos conflitantes; a superproteção do seu pai, que também não saiu do luto e, ainda luta contra um vício; o irmão que ainda não se decidiu o que fazer da vida, mas tem que lidar com todos os problemas que assolam a família e ainda apoiar a irmã em sua liberdade para ser aquilo que ela quiser; e um tio que é meio louco. Não vou contar muito mais para que, aqueles que querem apreciar essa leitura, o façam como eu: sabendo o menos possível e, assim, se surpreendendo.

Eu revirei os olhos. Curioso era meu tio Jonathan pensar que a prostituição seria demais para a minha convicção feminina e, ainda assim, não achar nada de mais em me deixar ver um corpo ser aberto antes do almoço.

Com uma mistura de "eu vou provar que sou melhor que qualquer homem" e "não é por querer abrir cadáveres que eu não sou feminina", a história é conduzida. A protagonista não é tão girl power como achei que seria e isso me decepcionou um pouco. Ela tenta, a qualquer custo, provar que é melhor que Thomas, um outro aluno do seu tio. Mas permanece confusa com os sentimentos que sente por ele, ora irritada, ora com o coração disparado. Ela é apenas uma adolescente e os as dúvidas sobre as suas próprios emoções e a competitividade que a assola são justificáveis.

Por falar nisso, as suas atitudes infantis, em alguns momentos, também são aceitáveis se pensarmos com calma. Audrey não chegou a idade adulta e, além disso, se curou de uma doença. Após esse episódio infeliz, o seu pai a criou em uma redoma de vidro, com medo que a filha ficasse doente novamente e venha a morrer, como aconteceu com a falecida esposa - a mãe dela. Todavia, ela conseguia mostrar algumas atitudes maduras, mas em outras era uma criança birrenta tentando mostrar que é a melhor.

A cordialidade amigável que eu vinha sentindo em relação a ele congelou-se como uma lagoa durante um inverno particularmente frio. 

Porém, em muitos momentos, eu tinha que lembrar que se passa em 1888, uma época em que as mulheres não tinham voz para nada e que só serviam para casar, ter filhos e gerenciar a propriedade da família. Audrey estar presente durante a investigação e, ainda, ter aulas com o seu tio, é um grande avanço para a época em comparação com as outras mulheres de sua idade. Não dá para pedir que ela tenha a mesma cabeça que as mulheres atuais, já que somos criadas de maneira diferente - e nem preciso dizer que muitas ainda, mesmo assim, agem igual a ela, rs.

Logicamente que a protagonista era privilegiada. Vindo de uma família de aristocratas - que na época isso ainda era importante -, tinha um tio que era médico e ensinava o assunto do seu interesse. Se ela fosse uma adolescente sem dinheiro e sem família com títulos, provavelmente estaria trabalhando como empregada, por exemplo, já que era a realidade da maioria das pessoas da classe social mais baixa. O local que ocorrem os assassinatos, na verdade, era um bairro pobre, superpopuloso, que tinha grande quantidade de imigrantes. Com isso, o desemprego era alto e muitas mulheres acabavam se prostituindo e o assassinatos delas eram "comum". O que realmente chocou, no caso do Jack, era que os corpos delas eram estripados e ele acabou ganhando o título de o "pai dos serial killers" por nunca terem descoberto quem realmente era. 

Minha mãe costumava dizer: "Rosas têm tanto pétalas quanto espinhos, minha flor escura. Você não precisa acreditar que alguma coisa seja fraca porque ela parece delicada. Mostre ao mundo sua valentia".  

Portanto, não posso deixar de salientar a incrível pesquisa que a Kerri Maniscalco fez. Por ser o seu romance de estreia, ela escolheu um tema bem ousado e conseguiu administrar tudo com maestria. A autora começou bem e, para mim, que não tinha grandes expectativas achando que seria mais do mesmo, me fascinou e me cativou com a narrativa. Mostrou que sabe do que está falando, por não só abordar detalhadamente o caso do Jack, mas também sobre a medicina naquele ano e os costumes da população. A ambientação da era vitoriana, nos seus pontos positivos e negativos, está descrita no enredo e nos envolvemos com a época retratada.

Com uma narrativa fluída e envolvente, é narrado em primeira pessoa sobre o ponto de vista da Audrey, que nos dá uma visão unilateral da história, acompanhando o seu dia-a-dia como investigadora. O final, para quem é fã de mistério, não é tão chocante, pois ela usa a fórmula já utilizada por outros autores famosos. Nos mostrou todas as pistas certas, mas o culpado acaba sendo a pessoa que ninguém esperava - e por motivos que nenhuma alma sequer cogitaria. E se pensarmos que os acontecimentos realmente possam ter acontecido, faz todo sentido, já que ela sustenta uma boa teoria sobre o culpado. Espero que, nos próximos, ela conseguia evoluir em sua escrita.

De alguma forma, em meio ao vício do meu pai, um assassino à solta, mulheres mutiladas e baldes de sangue, eu consegui abrir um pequeno sorriso.

Por outro lado, é legal ver todos os pensamentos progressistas da protagonista. Apesar de, em algumas partes agir de acordo com uma pessoa mais nova, ela querer superar os limites sociais e estudar aquilo que gosta - mesmo isso sendo dissecar mortos - é louvável. Além disso, demonstra conhecimento sobre a luta do nosso gênero, inclusive dizendo que a prostituição é um emprego em que as mulheres tinham que exercer por conta das injustiças da sociedade. Sim, o livro nos traz o feminismo na era vitoriana, alguns de maneira sutil, e outros bem escancarados.

Recomendo para todos aqueles que gostam do gênero e que, ainda, não se importam de o protagonismo ser feminino. Além disso, pode ter umas partes bem detalhadas sobre o corpo humano e as autópsias, então não é todo mundo que irá apreciar. Entretanto, a edição da Darkside Books, como sempre, é linda e enche os olhos em todos os detalhes, fazendo com que o preço compense. Eu adorei a história e, sinceramente, estou bem ansiosa para a continuação, em que abordará o Drácula. Espero ver a Audrey ainda mais madura nessa nova aventura.


E vocês, já leram o livro? Querem ler? Qual é a opinião de vocês?